A gestão de incidentes é a prática de ITSM que mais gente julga dominar e a que mais parte na operação real. Na sustentação de ambientes GLPI de clientes, o problema quase nunca é um técnico que não sabe fechar um pedido - é o SLA que estoura sem ninguém ser avisado, a prioridade que alguém alterou à mão e o cron a correr no modo errado. Este guia mostra onde o incidente vive no GLPI, como classificá-lo sem inventar campos, e as armadilhas de terreno que só aparecem ao fim de meses de operação.
Onde o incidente vive no GLPI
Incidente e pedido não são módulos separados: são o mesmo objeto Ticket, na tabela glpi_tickets, distinguidos pela coluna type - 1 para incidente, 2 para pedido. O que muda é o fluxo, o SLA e a leitura de gestão. Segundo a ITIL 4, um incidente é uma interrupção não planeada ou uma redução na qualidade de um serviço, e o objetivo é repor o serviço o mais depressa possível, não descobrir a causa - isso é gestão de problemas.
Todo o incidente percorre uma máquina de estados fixa. Conhecer o código de cada estado importa porque os relatórios, as regras de negócio e o SQL de diagnóstico trabalham com o número, não com o rótulo:
| Código | Estado | O que significa | Uso na sustentação |
|---|---|---|---|
| 1 | Novo | Registado, sem atribuição | Fila de triagem |
| 2 | Em curso (atribuído) | Técnico designado | Marca o TTO cumprido |
| 3 | Em curso (planeado) | Há uma tarefa agendada | Trabalho programado |
| 4 | Em espera | A aguardar terceiro ou requerente | Pode pausar o relógio do SLA |
| 5 | Resolvido | Solução de contorno ou correção aplicada | Abre a janela de fecho automático |
| 6 | Fechado | Confirmado pelo requerente | Dispara o inquérito de satisfação |
O pormenor que deita abaixo um relatório: o estado Em espera (4) pausa a contagem do SLA quando o configura assim. O técnico que despeja tudo em Em espera para "não estourar o prazo" está a mascarar o indicador, não a melhorar o serviço.
Classificação: a matriz Urgência × Impacto
O GLPI não deixa o técnico escolher a prioridade no vácuo. Ela é calculada pelo cruzamento de dois campos que o requerente e quem faz a triagem preenchem: urgência (a que velocidade o negócio precisa) e impacto (quantos afetados e quão críticos). A matriz está em Configuração > Geral > Assistência e é totalmente editável. Um recorte simplificado da lógica:
| Urgência \ Impacto | Baixo | Médio | Alto |
|---|---|---|---|
| Alta | Média | Alta | Muito alta |
| Média | Baixa | Média | Alta |
| Baixa | Muito baixa | Baixa | Média |
O GLPI suporta até cinco níveis de urgência e impacto, mais a prioridade Maior (crítica). A matriz por omissão é simétrica - urgência e impacto pesam por igual. Ajuste os pesos à realidade do cliente: num retalho, um POS em baixo em hora de ponta é urgência máxima, independentemente do número de lojas afetadas.
O fluxo de atendimento, passo a passo
- Registo: portal self-service, e-mail (coletor), telefone ou integração. As regras de negócio (
RuleTicket) classificam categoria, grupo e prioridade automaticamente noitem_add. - Tomada de conhecimento (primeira resposta): o GLPI grava em
takeintoaccount_delay_stato tempo até à primeira ação do técnico. É o seu SLA de atendimento (TTO - time to own), diferente do SLA de resolução (TTR - time to resolve). - Investigação: base de conhecimento, histórico de pedidos semelhantes e CMDB. O módulo AI Assist resume threads longas e sugere soluções a partir da base.
- Resolução: definitiva (causa corrigida) ou contorno (workaround). Se for um contorno recorrente, associe-o a um Problema - o incidente não "se transforma" em problema, são objetos distintos.
- Fecho: após confirmação, o pedido passa a Fechado e dispara o inquérito de satisfação.
A armadilha nº 1 da sustentação: o cron no modo errado
É a falha que mais atendemos num ambiente de cliente novo. O SLA está configurado, os níveis de escalonamento estão criados, e mesmo assim ninguém recebe o aviso quando o prazo estoura e os pedidos resolvidos nunca se fecham sozinhos. A causa é quase sempre a mesma: as ações automáticas do GLPI estão em modo GLPI (web), que só corre quando alguém carrega uma página. Num cliente com pouco tráfego fora do horário de expediente, o escalonamento de SLA simplesmente não corre.
A correção é pôr o agendador em modo CLI, despoletado por um cron do sistema operativo. Em cada ação automática (Configuração > Ações automáticas), defina Modo de execução = CLI e adicione a entrada no crontab:
# /etc/cron.d/glpi - executa o agendador do GLPI a cada minuto
# GLPI 10 e 11: front/cron.php e o caminho portavel entre versoes
* * * * * www-data /usr/bin/php /var/www/glpi/front/cron.php >/dev/null 2>&1
Dependem deste cron para funcionar: closeticket (fecha automaticamente o que ficou Resolvido além do prazo), createinquest (gera o inquérito de satisfação) e o escalonamento por nível de SLA. Um pormenor de portabilidade que apanha muita gente: no GLPI 11 não existe o comando de consola glpi:cron que alguns tutoriais de GLPI 10 citam - o caminho que funciona nas duas versões é o front/cron.php acima.
Diagnóstico: encontrar incidentes a estourar o SLA
Quando o cliente diz "o SLA não está a cumprir", o primeiro passo é olhar o dado em bruto, não a dashboard. Este SQL lista incidentes abertos cujo prazo de resolução já passou e assinala os que nunca foram sequer tomados de conhecimento (takeintoaccount_delay_stat = 0):
SELECT t.id,
t.name AS titulo,
c.completename AS categoria,
t.priority,
t.time_to_resolve,
IF(t.takeintoaccount_delay_stat = 0,
'SEM PRIMEIRA RESPOSTA', 'ok') AS atendimento
FROM glpi_tickets t
LEFT JOIN glpi_itilcategories c ON c.id = t.itilcategories_id
WHERE t.is_deleted = 0
AND t.type = 1 -- 1 = incidente
AND t.status NOT IN (5, 6) -- exclui Resolvido e Fechado
AND t.time_to_resolve IS NOT NULL
AND t.time_to_resolve < NOW() -- prazo de resolucao ja estourou
AND t.solvedate IS NULL
ORDER BY t.time_to_resolve ASC;
Ao correr isto na sustentação, o padrão que mais aparece não é volume elevado de pedidos: é um punhado de incidentes de prioridade alta parados Em espera há dias, com o relógio "em pausa", enquanto o requerente julga que estão a ser tratados.
Uma notificação de escalonamento que o gestor lê mesmo
O modelo de escalonamento por omissão envia um bloco genérico. Um modelo enxuto, com as etiquetas certas, faz o supervisor agir sem abrir o GLPI. As etiquetas ##ticket.*## são resolvidas pelo GLPI no envio:
Assunto: [SLA estourado] Pedido ##ticket.id## - ##ticket.title##
O pedido abaixo ultrapassou o prazo de resolucao.
Titulo: ##ticket.title##
Categoria: ##ticket.category##
Prioridade: ##ticket.priority##
Estado: ##ticket.status##
Atribuido a: ##ticket.assigntousers##
Prazo (TTR): ##ticket.time_to_resolve##
Abrir o pedido: ##ticket.url##
Erros comuns de terreno
- "Tudo é urgente": quando cada pedido entra como prioridade alta, não tem priorização, tem uma fila cronológica cara. Bloqueie a urgência no formulário guiado e eduque pela matriz.
- Prioridade editada à mão: o técnico que sobrepõe a prioridade calculada parte a leitura do SLA e a matriz. Se precisam de reclassificar sempre, o defeito está na matriz, não no técnico.
- Confundir TTO com TTR: "abri o pedido para ler" já conta como tomada de conhecimento e cumpre o SLA de primeira resposta sem ninguém ter resolvido nada. Meça o TTR (resolução), não só o TTO.
- Um contorno que se torna definitivo: workaround aplicado e pedido fechado, sem Problema aberto - o incidente volta na semana seguinte. Associe os contornos recorrentes a um Problema.
Próximo passo
Com a gestão de incidentes sólida, avance para a gestão de problemas (eliminar a causa raiz) e a gestão de mudanças. Para acelerar a triagem, o módulo Smart Assign distribui incidentes entre técnicos por regras de carga e competência, e o guia de SLA e OLA cobre a configuração de prazos.
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Revisto pela equipa NexTool Solutions.